Está a ler o arquivo 2005-2009 do Beijós XXI. A partir de 2010, o blogue passou a ser publicado no endereço http://beijozxxi.blogspot.com

domingo, 16 de dezembro de 2007

Altas Cavalarias

Nas inquirições de 1258, diz-se que em Ulvaria de Conde e seu termo havia cavalarias, além da vila, também em Villa Mediana, Alvarelias, Travanca, Cabanas e Beagios (no mesmo doc. nalguns sítios está escrito assim, noutros com dois "oo"), todas sob o domínio régio.
Da de Beijós, jura João Fernandes que o seu pai Fernando Soares, cónego da Sé de Viseu, a adquiriu a um Aldrabão Aldraveo de Canas, deixando em testamento metade a organizações eclesiásticas e metade aos seus filhos. Pedro Martins, de Beagioos, confirma, tal como também testemunham D. Mendo, João Gonçalves e Martim Joanes, todos de Ulvaria. Se o meu latim não me atraiçoa, estas testemunhas declaram também que, em vez de prestarem serviço militar ao Rei, os herdeiros da cavalaria pagam o morabitino de Maio.

Por esta altura era mais vantajoso para o Rei o morabitino do que a prontidão militar do cavaleiro. No entanto, no livro em que defende a naturalidade viseense de Afonso Henriques, Almeida Fernandes apresenta um mapa das cavalarias que em 1127 constituiam uma protecção aos interesses de D. Teresa em Viseu e arredores, fazendo Beijós e Cabanas parte desse mapa.

6 Beijos:

roger.a disse...

Estes povos já se podiam considerar portugueses nestas datas?

Então o IRS chamava-se Morabitino?
Em que moeda ou produtos o pagavam?

beijokense disse...

Não era IRS, era IRI (Imposto Real sobre Imóveis).

Parece que o morabitino era equivalente a 180 dinheiros, ou seja, era muito dinheiro.

À medida que os mouros deixaram de chatear a coroa portuguesa, muitos dos cavaleiros vilãos não seriam necessários nas lides militares e o morabitino dava jeito ao Rei. Dava também jeito ao cavaleiro, que teria mais com que se preocupar na gestão da sua propriedade, uma vez que, não sendo nobre, não se podia dedicar a tempo inteiro às artes de bem cavalgar a toda a sela.

beijokense disse...

Querem saber quanto vale hoje um morabitino?

roger.a disse...

Mas afinal um morabitino era um meio de troca ou um imposto real?

Creio que ainda há menos de dois séculos se faziam negócios ou trocas em géneros, p/ ex. c/ aninais, etc !

beijokense disse...

nullum forum faciut Regi, nisi tantum quod dant collectam et j. morabitinum, prima di Madii, ratione equi

Isto significa que João Fernandes e o irmão, herdeiros da cavalaria, não devem outro foro ao Rei que não seja 1 morabitino, pago em Maio, em razão do cavalo.
Tecnicamente este pagamento não era um imposto, era um foro (renda), uma vez que as terras da cavalaria seriam consideradas propriedade do Rei. O cavaleiro dispunha delas em troca de serviço militar, o qual, como já disse, foi depois substituido por valor pecuniário, fixado em 1 morabitino. Este foro era conhecido por "morabitino de Maio" ou "cavalo de Maio", ratione equi.

Este pequeníssmo extracto da Inquirição de Beijós, mostra como as cavalarias foram importantes para a consolidação territorial do Reino de Portugal, no seguimento duma estratégia que já fora definida por D. Henrique e D. Teresa. Cediam-se terras que não tinham senhor a cavaleiros vilãos (i.e. não nobres), sendo muitos deles, como este Aldraveo, muçulmanos. Em troca, eram chamados a defender as fronteiras. Na prática, os mouros que quisessem uma cavalaria eram os primeiros a defender o território dos avanços dos outros mouros. Digam lá se não foi uma jogada inteligente?

Depois, veio mais uma jogada inteligente. Para as novas guerras era preciso um exército profissional, os cavaleiros vilãos não tinham grande utilidade. Então, que paguem entes o morabitino. Embora a terra continue a ser do Rei, a cavalaria pode transmitir-se por compra e herança, havendo assim garantia do foro.
Para o bem e para o mal, Portugal teve sempre um Estado forte e um fisco voraz... desde a fundação!

roger.a disse...

Interessante as origens e as adaptações à conjuntura dos tempos.. e dos poderes!

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