Está a ler o arquivo 2005-2009 do Beijós XXI. A partir de 2010, o blogue passou a ser publicado no endereço http://beijozxxi.blogspot.com

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Eventos - 1 - 26 de Julho - Dia Mundial dos Avós (dia de São Joaquim e Santa Ana, pais da Virgem Maria)


Carta para Josefa, minha avó


“Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas, deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama, quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, uma crise de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira, sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. (…)

Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber onde é o mundo. Chegas ao fim da vida e o mundo ainda é para ti o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança. (…)

Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: ‘O mundo é tão bonito; e eu tenho tanta pena de morrer’.”

José Saramago – Deste Mundo e do Outro, p. 27

5 Beijos:

António disse...

Que o mundo seja nunca perca a sua beleza para as avós beijosenses.
Um grande Beijo às avós de Beijós.

peixeira disse...

Carta para Joaquim, meu avô
«Não sabes nada do mundo. Não entendes de filosofia nem os dogmas da religião. Nem fazes ideia de que não és meu avô.»
(...)
«Estou diante de ti e não entendo. Não sou da tua carne nem do teu sangue, não entendo. Estou a chegar ao fim da minha vida e tudo isto é um mistério inacessível.»
(...)
«O mundo não está bonito e eu tenho pena, mas vou ter de morrer para resolver este mistério».

Micas10 disse...

Uma das minhas imagens favoritas, que se vê em poucas igrejas,é a de Santa Ana a ensinar a jovem Maria a ler, um tradição importante entre os judeus de todos os tempos. Passados 2000 anos, 11% adultos portugueseses (e 20% dos beijosenses) ainda não sabem ler, e não se houve falar de campanhas de alfabetização, nem na igreja nem na escola. Será que existem ?

Se fosse hoje, Nossa Senhora e Santa Ana estariam debruçadas à frente do computador e seria a filha a ensinar a mãe.

Por isso foi criada uma campanha para a iniciação dos avós à Internet.

Já mostraste a Internet e o Beijós XXI aos teus avós ? E aos teus pais, e aos teus vizinhos ?

Ver a sugestão do Beijós XXI
http://antoniopovinho.blogspot.com/2006/07/iniciao-dos-idosos-internet.html

beijokense disse...

Claro que os jovens devem mostrar os computadores aos avós, não só a Internet, mas tudo aquilo que costumam fazer no computador... como já disse noutro comentário, não só aos avós, mas a todos os que não lidam com computadores.

P.S. A taxa de analfabetismo na freguesia de Beijós era, em 2001, 15% (considerando analfabeto quem não sabe ler e escrever). Isso significa que Beijós não está muito longe da média e provavelmente ficaria melhor que a média se controlássemos o efeito do envelhecimento.

peixeira disse...

Que idade teria Maria quando a mãe a ensinava a ler??
O dogma da imaculada conceição, embora date do séc. XIX e seja apresentado como uma necessidade 'lógica', tem inegáveis raízes na tradição veiculada por aquilo que hoje é conhecido como proto-evangelho de Tiago. Lá se diz que Maria foi levada aos 3 anos para o templo do Senhor, onde recebia alimento pelas mãos de um anjo e de onde saíu aos 12 para ir para casa dum carpinteiro viúvo. Resumindo, se aprendeu a ler com a mãe, teve de ser antes dos 3 anos.

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