Está a ler o arquivo 2005-2009 do Beijós XXI. A partir de 2010, o blogue passou a ser publicado no endereço http://beijozxxi.blogspot.com

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Sousa Mendes e os Outros

Foi notícia no Diário as Beiras:

"O lapso de José Hermano Saraiva
Do alto do seu castelo altaneiro, qual rei do saber incontestado, detentor da douta verdade, sua excelência o professor doutor José Hermano Saraiva veio dizer que a inclusão entre os dez “Grandes Portugueses”, de Aristides Sousa Mendes, se trata de “um lapso”.
Para que conste, Aristides Sousa Mendes foi o cônsul de Portugal em Bordéus durante a II Guerra Mundial. Graças a esta figura, que o “grande” historiador Saraiva considera como menor, foram salvos do holocausto nazi milhares de pessoas. Contrariando ordens de Salazar (amigo do grande português Saraiva), Sousa Mendes passou milhares de vistos a refugiados, principalmente judeus, que fugiam do avanço nazi.
Devido a esse gesto, depois de regressar a Portugal, Sousa Mendes, pai de uma família numerosa, foi punido pelo governo de Salazar. O amigo de Saraiva decidiu diminuir durante um ano o salário do diplomata para metade e depois foi reformado compulsivamente. Não satisfeito com a medida, o amigo de Saraiva decidiu ainda sem apelo nem agravo que Sousa Mendes nunca mais poderia exercer a sua profissão de advogado.
O cônsul demitido e a sua família sobrevivem graças à solidariedade da comunidade judaica de Lisboa, que facilitou a alguns dos seus filhos os estudos nos Estados Unidos. Sousa Mendes, que nasceu em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, curiosamente um concelho vizinho de Santa Comba Dão, acabou por ter que vender todos os seus bens e quando faleceu a 3 de Abril de 1954, no hospital dos franciscanos em Lisboa, totalmente na miséria, não possuindo sequer um fato próprio, foi enterrado numa túnica de franciscanos.José Hermano Saraiva como se sabe foi colaborador de Salazar e seu ministro da Educação. Não tardará muito e também Saraiva estará a dizer que o holocausto foi um lapso.
Felizmente que hoje em dia tanto JHS como eu podemos escrever e dizer o que nos vai na alma, ao contrário de outros tempos em que apenas JHS podia dizer o que quisesse. Também ao contrário do seu amigo Salazar, os políticos saídos do 25 de Abril – apesar da sua colaboração com o regime deposto – permitem que o senhor possa ter uma tribuna, ainda por cima privilegiada, para dizer as coisas certas e os disparates que quiser. (...)"

10 Beijos:

Anónimo disse...

Excelente comentário.
Ao contrário de JHS, Sousa Mendes será sempre lembrado pela História como “Um Homem Bom”.
Ainda que “Extraordinário” seria um melhor adjectivo.

Anónimo disse...

ASM gostava da ostentação, por isso construiu aquele casarão e pôs lá o Cristo de braços abertos. Tinha um batalhão de criados, 2 mulheres e 14 filhos, e os seus rendimentos não cobriam as despesas. Salazar é o responsável por ele ter acabado 'na miséria'? Então a família não tinha recursos? O irmão não foi ministro e embaixador?
Na verdade, o irmão apoiou-o financeiramente várias vezes antes do episódio de Bordeaux, porque não fez o mesmo no fim? Já não tinha dinheiro? Ou não aturava os devaneios da francesa?
Antonio, diga lá: o que terá passado pela cabeça do embaixador de Inglaterra em Lisboa para escrever uma carta a Salazar (20-06-40) comunicando que o Consul em Bordeaux estava a passar vistos fora do expediente, cobrando taxas suplementares? Onde foram parar essas taxas?

viveiros-batista disse...

não costumo dar credito aos comentarios anónimos, mas neste caso concordo plenamente com o comentario anterior.

roger.a disse...

JHS além de um extraordinário historiador, tem o Dom da coerência de princípios, mantendo-se fiel à sua linhagem política que nunca terá questionado, ao contrário de Outros do seu tempo.
Os factos históticos produzem imagens,testemunhos, percepções diferentes, por vezes contraditórios, em função das "mentes" que os observam ou relatam.
Para uns é mais importante saber quantas vidas se terão salvo....
...para outros o mais importante é saber se havia taxas suplementares e onde foram parar, etc, etc.

Por isso nada de novo na contradição de opiniões sobre o tema mais negro do século XX e dos mais crueis e devastadores da história da humanidade.

Anónimo disse...

ASM pode ter sofrido de algum gosto pela ostentação…ele era humano como qualquer de nós, com virtudes e faltas.
No entanto, ele era suficientemente humano para arriscar o pescoço para salvar muitos seres humanos das garras dos Nazis, ele pagou caramente por isso.
Antes de alguém o criticar pela sua ostentação, devem ler um pouco de História dos Nazis e de outros regimes fascistas que como Salazar, semearam miséria pelos seus povos com impunidade.

Areal disse...

Valha-nos a Maior SANTA desta terra, a SANTA IGNORÂNCIA.

FOFOKEIRA disse...

» Há uma velha história sobre três cegos que encontraram um elefante.

» Quando lhes pediram para descrever o elefante, cada um disse uma coisa diferente.

> Um disse que o elefante era como uma grande mangueira de água;
> o segundo disse que se assemelhava a uma vassoura;
> e o terceiro disse que era como um tronco de árvore.

»Cada um descreveu o que sentia de acordo com a sua perspectiva.

»Tornamo - nos humildes ao ter consciência de que somos todos como os cegos, cada um limitado na sua capacidade de perceber as coisas que estão mesmo à nossa frente.

Micas10 disse...

Se Aristides de Sousa Mendes tivesse sido um homem perfeito, como veríamos hoje o seu acto de Altruismo, ao seguir a sua Consciência e a fazer o tudo o que estava ao seu alcance para salvar tantas vidas em perigo, mesmo sabendo que ia sofrer por isso?

Para mim, o ACTO de CONSCIÊNCIA de Aristides de Sousa Mendes tem tanto mais valor por não se tratar de um santo mas de uma pessoa normal, com virtudes e defeitos, sujeito a todos os condicionantes do seu tempo.
E o apoio e dedicação que têve da sua mulher Angelina e do resto da família foi também extraordinário.
Em 1940, com os Nazis em ascendência, teria sido muito mais fácil fechar os olhos e as portas ao DESESPERO, como fizeram Francisco Franco e os espanhóis, e outros tantos países por esse mundo fora.

Anónimo disse...

Olá de novo, eu só quero dizer que não foi Salazar quem obrigou o heroi a morrer na miseria. Ele acabaria na miseria com ou sem Salazar por uma simples razão, é isso que acontece a quem gasta mais do que ganha.

Anónimo disse...

Ressuscitasse Salazar e o povo português (impregnado de uma assustadora falta de civismo e de uma completa ausência de espírito interventivo) assistiria a mais uma dose de 40 anos de ditadura, impávido e sereno!... Que dizer do trajecto e da carreira televisiva de José Hermano Saraiva?
Para além da sua duvidosa competência técnica - televisionem um dos seus bens locucionados programas na companhia de um professor de história e verão o assustador numero de gafes com que o fascista nos presenteia! - este senhor, que por obra e graça do divino espírito santo caiu no goto dos portugueses, não se coibiu de, enquanto ministro de Salazar, sanear e frizo sanear professores universitários de incontestável mérito académico! Como se não bastasse assegura-nos que Salazar foi anti-fascista (ver artigo publicado no DN? há uns meses atrás) e que Aristides de Sousa Mendes não passou de um português medíocre como ele próprio!
Continuem a compadecer-se do velhinho e a achar-lhe piada mas não contem comigo.
Abraço
César Monteiro sapatilhasanjo@hotmail.com

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